10 erros ao escutar letras de música
Redação Super 21 de fevereiro de 2011
por Thiago Perin
COLABORAÇÃO PARA A SUPERINTERESSANTE
Às vezes, o sotaque do cantor é meio enrolado. Às vezes, a poesia é um tanto
“obscura” e fica difícil entender o que ele está querendo dizer – “do nosso
jeito” faz bem mais sentido. Daí a gente abstrai e canta errado mesmo. E tem
quem passe a vida toda cantando um verso, um trecho, ou até uma música inteira
da forma errada, sem ao menos se dar conta. É quase um fenômeno antropológico.
Então, nos aventuramos em uma pequena pesquisa informal e listamos algumas das
mais curiosas “releituras” ligeiramente equivocadas de verdadeiros clássicos da
música. Tem para todos os gostos. Ouve aí. Canta em coro com a gente.
“NOITE DO PRAZER”, de Cláudio Zoli
A letra correta: “Na madrugada / A vitrola rolando um blues /
Tocando B.B. King sem parar”
Como o pessoal canta: “Na madrugada / A vitrola rolando um
blues / Trocando de biquíni sem parar”
A gente já começa com o maior clássico da seção “cantando errado”. “Noite do
Prazer”, de 2001, deixou os não-fãs de blues confusos. Prazer estranho esse de
ficar trocando de biquíni sem parar. Na madrugada, ainda por cima.
“MELÔ DO MARINHEIRO”, dos Paralamas do Sucesso
A letra correta: “Entrei de gaiato no navio”
Como o pessoal canta: “Entrei de caiaque no navio”
No dicionário, “gaiato”: “rapaz travesso e vadio, garoto, amigo de travessuras,
malicioso”. Ok, o pessoal entrou no navio na base da malandragem. Faz sentido.
Entrar DE CAIAQUE no navio não faz. Confere aí o “Melô do Marinheiro”, de 1986.
“COMO NOSSOS PAIS”, de Elis Regina
A letra correta: “Mas é você que ama o passado e que não vê /
Que o novo sempre vem”
Como o pessoal canta: “Mas é você que é mal-passado e que não
vê / Que o novo sempre vem”
Se deixe contagiar pela interpretação visceral de Elis em “Como Nossos Pais”, de
1976, e é fácil achar que ela está ali apontando o dedo e querendo ofender
mesmo: “SEU FEIO. SEU MAL-PASSADO”. Mas não, gente. Ele só “ama o passado”.
Menos mal.
“MELÔ DO TCHAN”, do Gera Samba
A letra correta: “Domingo ela não vai / Vai, vai / Domingo ela
não vai, não / Vai, vai, vai”
Como o pessoal canta: “Comigo ela não vai / Vai, vai / Comigo
ela não vai, não / Vai, vai, vai”
Calma, ela até vai com você – só não no domingo. Por que? Vai saber, talvez
porque domingo é dia santo e ela, moça recatada, é religiosa demais. Se não
tomar cuidado, “depois de nove meses você vê o resultado”. O “Melô do Tchan” fez
todo mundo (oi?) dançar em 1996.
“OCEANO”, do Djavan
A letra correta: “Amar é um deserto e seus temores”
Como o pessoal canta: “Amarelo é um deserto e três tenores”
Esse erro nem é tão grave, e é especial, porque conseguiu até manter uma certa
poesia no verso. Afinal, um deserto é, de fato, amarelo, certo? Já a parte sobre
os tenores, bem, aí é preciso um pouco mais de imaginação. Dê play e relembre
“Oceano”, de 1989.
“YOU KNOW I’M NO GOOD”, da Amy Winehouse
A letra correta: “I cheated myself” (“Eu traí a mim mesma”)
Como o pessoal canta: “I shitted myself” (“Eu borrei as
calças”)
Em 2006, Amy apareceu cantando que tinha traído a si mesma. Mas a sonoridade do
verbo “trair” no passado, em inglês, se aproxima muito de outro, que é ainda
mais degradante. Fica fácil confundir. Mas, bem, a gente já viu ela aprontando
cada uma que, convenhamos, se a letra errada fosse factual, não seria lá grande
tapa na cara da sociedade.
“TICKET TO RIDE”, dos Beatles
A letra correta: “She’s got a ticket to ride” (“Ela tem uma
passagem para ir embora”)
Como o pessoal canta: “She’s got a chicken to hide” (“Ela tem
um frango para esconder”)
Ela vai deixar os Beatles tristes. E eles acham que é hoje. Mas é porque ela não
se importa com eles e está indo embora – aparentemente, de trem. Não tem nada a
ver com aves. No clássico de 1965, os ingleses colocaram a gente para cantar
sobre um misterioso frango que, por algum motivo, tinha que desaparecer. Ou não.
No caso, não.
“LOSING MY RELIGION”, do R.E.M.
A letra correta: “That’s me in the corner, that’s me in the
spotlight” (“Aquele sou eu no canto, aquele sou eu sob a luz do holofote”)
Como o pessoal canta: “Let’s pee in the corner, let’s pee in
the spotlight” (“Vamos fazer xixi no canto, vamos fazer xixi sob a luz do
holofote”)
Não, o clássico indie do R.E.M., de 1991, não incentiva tamanha rebeldia. Pelo
contrário, fala sobre um moço sem coragem de sair do seu cantinho e tomar uma
atitude mais significativa e chamar a atenção de um alguém especial. Se bem que…
De fato, se a ideia é chamar atenção, os versos errados dão uma ideia eficiente.
Talvez não a melhor, mas eficiente.
“ALEJANDRO”, da Lady Gaga
A letra correta: “She’s got both hands in her pockets” (“Ela
está com as duas mãos dentro dos bolsos”)
Como o pessoal canta: “She’s got Prozac in a bucket” (“Ela tem
Prozac em um balde”)
Ninguém se surpreende com Lady Gaga fazendo, vestindo ou cantando maluquices.
Será que em “Alejandro”, de 2009, a moça estava fazendo a antissocial, com as
mãos nos bolsos, ou tentando sair de uma fossa danada, à base de baldes de
antidepressivo? Quando o papo é sobre ela, não dá para ter muita certeza. Mas a
gente acha que é a primeira opção.
HINO NACIONAL, na versão da Vanusa
A letra correta: “És belo, és forte, impávido colosso / E o teu
futuro espelha essa grandeza”
Como o pessoal canta: “És belo, és forte, és risonho… E límpido
/ Se em teu formoso / Risonho e límpido… / A imagem do Cruzeiro…”
Ok, essa letra, desse jeito, provavelmente só ela canta. Quer dizer, depois do
mico cair no YouTube, agora em 2010, muita gente adotou a nova versão.
Convenhamos, o Hino estava mesmo meio desatualizado, precisando de uma
repaginada moderna, né? Obrigado, Vanusa.